Há músicas que não apenas tocam. Elas nos confrontam. Nos fazem parar por alguns minutos e olhar para a vida com mais honestidade. Epitáfio, da banda Titãs, é uma dessas canções.
Quando ouvimos versos como “Devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer”, não estamos diante de uma simples lista de arrependimentos. Estamos diante de um convite para refletir sobre como temos vivido.
A música nos lembra que é possível passar anos ocupados e, ainda assim, distantes daquilo que realmente importa.
Talvez seja por isso que ela dialogue tão bem com o autocuidado.
Muitas vezes associamos autocuidado a práticas voltadas ao corpo e à saúde. Mas existe uma forma de cuidado mais profunda: aquela que nos ajuda a viver uma vida com significado.
Nesse ponto, vale diferenciar dois conceitos que costumam ser confundidos: sentido e propósito de vida.
O propósito funciona como uma direção. É aquilo que nos move, os valores que orientam nossas escolhas, a contribuição que desejamos oferecer ao mundo. Já o sentido é a experiência subjetiva de perceber que a vida vale a pena aqui e agora. Enquanto o propósito aponta para onde queremos ir, o sentido nos ajuda a compreender por que continuar caminhando.
Um profissional da saúde que dedica sua vida ao cuidado de pacientes pode encontrar seu propósito em aliviar o sofrimento, promover saúde e contribuir para a qualidade de vida das pessoas. Mas o sentido pode aparecer em momentos simples: no sorriso de um paciente que recebeu uma boa notícia, no agradecimento de uma família, em uma conversa acolhedora ou na sensação de ter feito diferença na vida de alguém.
O problema é que, em meio à correria, muitas pessoas acabam perdendo contato com os dois. Continuam avançando, acumulando tarefas e responsabilidades, mas sem refletir se a direção ainda faz sentido.
É justamente sobre isso que Epitáfio parece falar. A canção não lamenta a falta de conquistas materiais. Ela lamenta a falta de presença. A ausência de experiências vividas com profundidade. Os afetos adiados. Os momentos desperdiçados pela pressa ou pelo medo.
Talvez o maior arrependimento não seja errar. Talvez seja chegar ao final da vida e perceber que vivemos de acordo com expectativas que nem eram nossas.
Por isso, autocuidar-se também significa criar momentos de pausa para perguntar: a vida que estou construindo está alinhada com aquilo que considero importante?
Porque, no fim das contas, bem-estar não é apenas sentir-se bem. É viver de um modo que faça sentido. E isso exige coragem para escolher, mudar de rota quando necessário e, principalmente, estar presente na própria vida antes que ela passe.
E talvez seja essa a grande mensagem de Epitáfio: a vida não é medida apenas pelo que conquistamos, mas pela forma como a vivemos. Pelas pessoas que amamos, pelos momentos que saboreamos e pela coragem de sermos fiéis ao que realmente importa. Afinal, enquanto estamos vivos, ainda há tempo para escrever uma história diferente daquela que um dia temeríamos ler em nosso próprio epitáfio.
🎵 Música para dialogar com esta reflexão: Epitáfio – Titãs
E você? Se pudesse reescrever hoje alguns versos do seu próprio epitáfio, o que gostaria de começar a fazer mais enquanto ainda há tempo?